Instituto Santa Cruz de Esportes – A luta por um ideal

Visita Solidária – Agosto 2014
Visita realizada em 24/08/2014 pela Rede E-Solidário ao projeto
Instituto Santa Cruz de Esportes

A visita solidária de Agosto foi ao Instituto Santa Cruz de Esportes em Santa Cruz, bairro com um dos piores IDH do estado do Rio de Janeiro.

O projeto foi criado em 2004 por dois jovens da comunidade quando tinham apenas 17 anos. São oferecidas aulas de esportes, com foco no judô, para as crianças e adolescentes.

Conheça a história do projeto, dos alunos e ex-alunos e destes dois jovens que acreditam no esporte como força transformadora da sociedade.

00_bem-vindos
Painel com fotos dos alunos.


Histórias pessoais

Para conhecer o Instituto Santa Cruz de Esportes é preciso conhecer a história do Rafael e da Jeane, os dois responsáveis por sua existência.

Quando a Jeane era criança, foi participar de uma colônia de férias no SESI e um professor a convidou para o judô. Inicialmente ela não queria fazer as aulas, mas depois de algum tempo resolveu frequentar regularmente. Começou a participar e ganhar competições pelo SESI e passou por outros clubes, como o Flamengo. Chegou a ser atleta de alto desempenho, mas por falta de patrocínio teve que abandonar a carreira e decidiu se dedicar ao ensino.

10_jeane
Jeane, uma das responsáveis pelo projeto, com o Gustavo.

O Rafael também começou no judô no SESI e sempre pensou em oferecer aulas para os jovens da comunidade.

20_rafael
Rafael durante a entrevista.

Em 2004 os dois estavam com aproximadamente 17 anos, na época de cada um definir seu futuro. Tinham que escolher entre seguir na carreira de atleta, continuar os estudos, trabalhar… Eles fizeram tudo isso, mas decidiram que ajudar ao próximo seria prioridade. Juntaram forças, procuraram a Associação de Moradores e conseguiram um espaço para começar o projeto.

Hoje o Rafael está por concluir a faculdade de Educação Física e trabalha como professor, mas, segundo ele, o Instituto é sua atividade principal. A Jeane é funcionária da Comlurb no Centro do Rio de Janeiro e, por conta dos horários de trabalho variáveis, tem dificuldades para conseguir chegar a tempo para dar as aulas. Atualmente tenta a transferência para Santa Cruz, para se dedicar mais ao projeto.


SESI e SENAI

No passado, os prédios do SESI e do SENAI ofereciam uma ampla área de lazer e cursos para a comunidade. Foi lá que a Jeane e o Rafael começaram. Em 2007 as atividades foram encerradas e em 2010 os prédios foram devolvidos à prefeitura, que criou um abrigo para moradores de rua e dependentes químicos, o Rio Acolhedor.

30_predioOriginal
Foto dos prédios na época de sua inauguração.

A região já tinha problemas com o tráfico de drogas e milícias no local, um dos motivos para o fechamento do SESI/SENAI. No entanto, os moradores acreditam que essa situação pirou após a implantação do abrigo e que o projeto da prefeitura, apesar de interessante, traz mais riscos que benefícios à comunidade. A principal crítica é de que o abrigo foi um projeto criado sem diálogo com a população local. De repente, um espaço que oferecia lazer e cursos passou a ser utilizado para o atendimento a uma grande quantidade de pessoas, algumas das quais podem oferecer riscos à sociedade caso não recebam o cuidado necessário.


De volta aonde tudo começou

O Rafael sempre teve vontade de levar o projeto de volta ao prédio do SESI. A ideia de ocupar o local era resgatar o espaço, que contava com uma infraestrutura que poderia atender a muitas pessoas e estava abandonada. Antes do fechamento, várias atividades esportivas e de capacitação eram oferecidas aos moradores da comunidade.

Depois de muita insistência do Rafael, o responsável pela Associação de Moradores entrou em contato com o diretor do abrigo, que cedeu o espaço para o projeto.

40_abrigo
Entrada do projeto Rio Acolhedor.

A atitude é de aceitar e conviver com os abrigados. A convivência, no entanto, não é simples. Como alguns deles compram e vendem drogas e até mesmo cometem assaltos na comunidade, acaba existindo uma barreira entre os dois projetos. Não funciona da maneira que o Rafael e a Jeane idealizaram, de forma integrada.

No início os pais ficavam muito preocupados com a segurança dos filhos. Embora a convivência hoje ainda não seja a ideal, a iniciativa serviu para aproximar os púbicos. O preconceito contra os abrigados diminuiu quando a comunidade se aproximou. Até o comportamento dos abrigados está melhor.

Fica a impressão de que, se houvesse interesse por parte da prefeitura ou mesmo da iniciativa privada em investir no local, criando um projeto que oferecesse esporte, lazer e capacitação para a comunidade, além de um trabalho efetivo de reabilitação do público atendido pelo abrigo, iniciativas civis como o Instituto Santa Cruz de Esportes poderiam oferecer cursos para os moradores e promover a integração entre os abrigados e a comunidade.

50_instalacoes
Nosso grupo de visitas conhecendo a infraestrutura do local.


O projeto

A atividade principal do Instituto Santa Cruz de Esportes é o Judô. Mas também são oferecidas aulas de Muay Thai, Capoeira, Boxe Tailandês, Balé e Futebol. Todas ministradas por professores voluntários. Alguns tinham projetos na comunidade e foram convidados para ocupar o espaço e exercer suas atividades lá.

Recentemente as aulas de Natação tiveram que ser interrompidas por falta de recursos para a manutenção da piscina.

60_instalacoes3
Aulas de natação suspensas temporariamente.

O foco principal é passar os ensinamentos e valores do esporte, além de motivar os alunos e retira-los de uma situação de risco social, oferecendo oportunidades.

O projeto sobrevive de doações e do empenho dos responsáveis. Infelizmente os alunos de hoje ainda têm os mesmos problemas na época que os professores estudaram: comprar o quimono, pagar uma simples passagem de ônibus ou comprar o lanche durante uma competição.

70_salaTatame2
Sala dos tatames.

O que os mantém é ver as crianças que se destacam e mudam de vida. Muitas viram atletas, crescem, continuam estudando e têm um futuro melhor.

Eles estimam que aproximadamente 300 crianças e adolescentes já passaram pela instituição e que cerca de 25 deles seguiram no esporte.

80_trofeus
Equipamentos e troféus.

O problema é quando os alunos estão com 15 a 17 anos e começam a sofrer pressão em casa para conseguir um emprego. Alguns desistem da carreira no esporte e saem para trabalhar. Infelizmente, alguns são perdidos para o tráfico.

Mas muitos continuam nos estudos, concluem o nível superior e são inseridos no mercado de trabalho. E por isso o projeto vale a pena.


Depoimentos

90_apresentacoes
Nosso grupo de visitas empolgado para ouvir os depoimentos.

Ouvimos os depoimentos de alguns alunos atendidos pelo projeto. Em comum, todos afirmaram que têm uma vida melhor graças ao esporte. Seja por uma simples mudança de atitude, melhoria das relações familiares, mais atenção aos estudos ou novas oportunidades. Dentre as histórias destacamos a do Jessé, ex-aluno do projeto que lançou um livro recentemente.

Ele já fez de quase tudo na vida. Teve um Lava-Rápido que lavava carros, caixas d’água, bicicletas e o que mais pedissem. Já quis ser músico, jogador de futebol e MC. Por ter falhado em muita coisa, achava que não tinha um dom. Foi numa viagem para São Paulo que teve contato com seu primeiro livro e, através de amigos, foi conhecendo cada vez mais a literatura. E sempre ao ler os livros pensava: “Eu posso fazer isso. E posso fazer melhor”.

Saímos de lá cheios de histórias de busca por um dom ou lugar no mundo, de perdas e retomadas, de sucessos e de fracassos, mas todas de pessoas que não desistem, que acreditam em si, nos seus ideias e que se superam a cada dia, apesar das dificuldades. Valores aprendidos com o esporte.

110_projeto
Lute por seus sonhos.

Se a Jeane não fosse até a colônia de férias do SESI, se o Rafael não lutasse por seu sonho de montar o projeto, se eles desistissem em algumas das inúmeras dificuldades que já tiveram ao longo desses anos, se o Jessé não tivesse a garra para encontrar seu dom, se não fossem todos os amigos que passaram pelo caminho de cada um e que de alguma forma acreditaram em seus projetos pessoais… Se essas coisas não tivessem acontecido, talvez o Jessé, garoto que cresceu na comunidade de Antares e que pichava muros, lavava carros e que repetiu a 7ª série 5 vezes não tivesse encontrado seu dom e se transformado em um escritor com seu primeiro romance publicado pela maior editora do país e que hoje viaja para contar sua história e inspirar outras pessoas.


Doações

A rede E-Solidário entregou para o projeto:

  • 72 quimonos novos.

120_doacoes0
Quimonos doados ao projeto.
130_doacoes3
Alunos com as doações.


Até a próxima

Nossos heróis solidários com os guerreiros do grupo de visitas.

140_ateAProxima
Belo registro.

Obrigado, amigos solidários. Até a próxima!

150_institutoSantaCruzDeEsportes
:D

Abraços Solidários,
Rede E-Solidário – Conectando necessidades a oportunidades através de pessoas solidárias.
http://www.e-solidario.com.br

Comentários ($)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *